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quarta-feira, março 12, 2008

ANTÓNIO RODRIGUES E O RENASCIMENTO EM PORTUGAL

Exterior da capela das 11 000 Virgens, em Alcácer do Sal

António Rodrigues continua a ser um enigma na história da arquitectura portuguesa do Renascimento.
Procurando retirar da penumbra uma obra impar e regastar para a memória presente este arquitecto no âmbito do Renascimento em Portugal, Domingos Tavares elaborou uma monografia sobre este arquitecto, com o titulo: - António Rodrigues e o Renascimento em Portugal.
A obra foi apresentada publicamente no dia 12 de Outubro, na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto.
Mas quem foi António Rodrigues e qual a sua importância na História da Arquitectura em Portugal?
A reflexão que Domingos Tavares efecuou na sua monografia permite-nos uma resposta sobre esta questão (sic):
- Escolhi António Rodrigues como primeiro arquitecto português de base científica, para expressar esse movimento colectivo com reflexos nas artes em geral e na arquitectura de modo particular (página 11)
É que Rodrigues foi um leitor crítico dos conceitos formulados nos tratados maneiristas que correram na sua época, propondo através do primeiro tratado de arquitectura de autor escrito em português, o enunciado teórico adequado ao humanismo neoplatónico em expansão nos meios intelectuais próximos da corte.(página 11)
Ao longo de 135 páginas, Domingos Tavares conduz-nos com mestria ao arquitecto, à sua obra e aos meandros do Renascimento num periodo complexo da nossa história: - Expansão, consulidação do império ultramarino, chegada da inquisição e anexação a Castela.
A obra divide-se em 9 partes: - Introdução, Cidades da Renascença, Um arquitecto discreto, Cultura de príncipes, Onze Mil Virgens, Rigor e variações, Lições de Arquitectura, Geometria e proporção (da autoria de João Pedro Xavier) e por fim o Último capítulo.
Pela leitura desta monografia, salienta-se um monumento impar na arquitectura portuguesa, que nas palavras de Domingos Tavares (sic): - (António Rodrigues) continua a ser apontado como o autor de uma das mais maravilhosas obras da arquitectura ocidental, a capela das Onze Mil Virgens anexa à igreja do convento franciscano de Santo António em Alcácer do Sal (páginas 11-12).
Trata-se de uma joia arquitectónica que Domingos Tavares atribui à fase inicial da obra de António Rodrigues, numa altura em que este manifesta um enorme fascinio pelo desafio de levar à pratica construtiva os desafios teóricos da linguagem geometrica levada à perfeição.
A obra final que é actualmente perceptível nessa capela, prova que este arquitecto acompanhou de perto a sua construção, de forma a encontrar soluções para problemas que poderiam surgir em estaleiro, de forma a impedir uma adulteração do projecto delineado em “desenho”.
Esta questão era muito importante, de tal forma e seguindo o texto de Domingos Tavares (sic, página 13) :
- A primeira qualidade do arquitecto é saber desenhar para que, por esse meio, possa mostrar o seu “conceito” e, em consequência, tornar exequível o que o entendimento da forma exige para a concretização da obra. E a expressão dessa virtude desenvolve-se a partir das “quatro espécies de desenho”: pranta (planta ou iconografia), momtea (alçado ou ortografia), perfice (perfil ou corte) e prespectiua (perpectiva ou cenografia)
Mas existem algumas questões que permanecem por clarificar. O problema de base começa pela própria figura deste arquitecto que teima em ...” esconder a sua personalidade numa discreta maneira de ser, escrever sobre ciência e por de trás dela se escondeu. (obra citada, contra-capa)
Na realidade muito pouco sabemos da sua vida. Numa atitude de prudencia, Domingos Tavares aponta para local de nascimento o Litoral Alentejano, sugerindo a área de Alcácer do Sal (página 32).
Pegando na sua reflexão quando afirma que esta figura, cavaleiro fidalgo da casa de El-Rei, continua a ser profundamente enigmática porque a investigação histórica permanece incapaz de esclarecer as muitas questões ainda em aberto e reflectindo sobre a sua obra-prima, a Capela das Onze Mil Virgens e o seu significado para Alcácer do Sal em termos da sua “memória colectiva”, tem bastante sentido propor que este arquitecto tenha uma forte ligação a Alcácer. A falta de documentação impede-nos de afirmar que ele terá aqui nascido, mas não é descabido levantar essa hipótese.
Uma das chaves poderá residir na Capela das Onze Mil Virgens.
No meu ponto de vista, estamos perante uma jóia, talhada na perfeição que se pode exigir da linguagem geométrica.
Mas transformando-se em diamante, não estamos perante uma obra geometricamente fria. Seguindo o pensamento de Domingos Tavares (página 70), o tratamento que o mármore translúcido da cúpula faz do sol permite estarmos perante uma metáfora da cúpula celeste.
A mestria com que António Rodrigues idealizou esta cúpula, que segundo Domingos Tavares segue o modelo da Igreja de Santa Sofia de Constantinopla( http://images.google.pt/imgres?imgurl=http://www.mlahanas.de/Greeks/Medieval/Arch/HagiaSophiaDrawing.jpg&imgrefurl=http://www.mlahanas.de/Greeks/Medieval/Arch/HagiaSophia.html&h=456&w=700&sz=44&hl=pt-PT&start=8&tbnid=Nhe17zZisGUE_M:&tbnh=91&tbnw=140&prev=/images%3Fq%3Dhagia%2Bsophia%26gbv%3D2%26hl%3Dpt-PT%26sa%3DG ) ou modelos bizantinos da Península Itália, é revelador de uma intenção forte de impressionar. Poderá ser alguém ou então dignificar a sua Terra Natal. Apesar do autor não ter aprofundado a questão do culto de Santa Úrsula em Alcácer (página 61), a sua presença na cidade do Sado, prende-se com a data tradicional que é atribuída à sua conquista definitiva em 1217. Actualmente supõe-se que foi uma data um pouco forçada em alguns dias, de forma a cativar a forte devoção dos cruzados do norte da Europa.
De forma a estimular um debate sobre este arquitecto e a problemática do Renascimento em Portugal, a ocasião serviu de pretesto para organizar um debate - Arquitectura do Renascimento em Portugal existiu?
Com o auditório cheio de participantes, foi estabelecido um interessante diálogo entre os conferencistas e o público.
O tema tinha um ar de desafio e o objectivo era estimular as várias correntes de postura que existe sobre a questão, desde as posições mais “fundamentalistas” que negam a existencia de uma arquitectura do “Renascimento” fora do espaço Italiano, até às posturas de que existe um Renascimento precose em Portugal, cuja linguagem arquitectónica se pode identificar em mais de 130 edifícios já invetariados.
Participarem neste seminário, os conferencistas Rafael Moreira, Marieta Dá Mesquita, Alexandre Alves Costa, Jorge Correia, Walter Rossa, Marta Oliveira e Domingos Tavares que de um modo bastante informal dissecaram as várias problemáticas específicas do renascimento no nosso país.

quarta-feira, julho 04, 2007

A PRESENÇA ALCACERENSE E TORRECENSE NO NORTE DE AFRICA,






segunda-feira, abril 16, 2007

Fr IOZÉ´ DA QUIETAÇAM (Guardião do convento de S. António de Alcácer)

Nota bibliografica segundo:
- Diogo Barbosa Machado, 1741, BIBLIOTHECA LUSITANA, TOMO II, paginas 894-895.


Fr. IOZE´DA QUIETAÇAM natural de Lisboa, e filho de Ioaõ Tavares Pereira, e Francisca Maria da Luz. Professou o serafico instituto da Provincia dos Algarves em o Real Convento de Xabregas em o de Março de 1717 onde fo Guardiaõ dos Conventos de Santo Antonio de Alcacere, e de S. Francisco de Montemór, Comisario dos Terceiros do Convento de Setubal, e Prègador Geral para cujo ministerio o dotou a natureza de especial genio, e prompta facilidade sendo sempre ouvido com geral aceitaçaõ. Tem publicado.

Sermaõ em aplauzo do Maximo Doutor S. Jeronimo prègado no Convento do Matto. Lisboa na Patriarchal Officina da Musica. 1728. 4.
Sermaõ na enternecida procissaõ que faz a devota, e veneravel Congregaçaõ de Nossa Senhora da Soledade, erecta unicamente em a notavel Villa de Setubal. Lisboa na Officina da Musica. 1735.4
Sermaõ do Capitulo Provincial. Lisboa na mesma Officina 1737. 4.
Sermaõ de S. Ioze prègado na sua Igreja. Ibi na dita Officina. 1738. 4.
Vida, e Novena do glorioso S. Marçal Discipulo de Jesu Christo inclito Bispo, e especial advogado contra os incendios. Lisboa por Mauricio Vicente de Almeyda 1736. 8.
Semana devota em louvor de Maria Santissima, e do glorioso S. Marçal. Lisboa na Officina da Musica. 1737.8.
Novena da Senhora dos Anjos, e modo de rezar a Serafica Coroa. Lisboa na Officina de Theotonio Antunes de Lima. 1737. 12.
Novena de S. Sebastiaõ ibi pelo dito Impressor 1737. 12
Novas Horas Seraficas Latinas, e Portuguezas. Lisboa pelo dito Impressor 1740. 12.
Despertador Catholico exposto m os quatro Novissimos do homm, e em os Passos da Paixaõ de Iesu Christo. Lisboa por Pedro Ferreira. 1741. 12.
Remedio contra o terrivel mal da peste aplicado em nove dias distribuido em nove setas do nome do soberano, glorioso, e invicto Martyr S. Sebastiaõ. Lisboa por Francisco da Silva 1743. 4.
Tributo de obsequios a Senhora Santa Anna. Lisboa por Pedro Ferreira. 1744. 12.
Suspiros a Deos menino antes de nacido ibi pelo dito Impressor 1744. 12.

GONÇALO LUCENA DE CARVALHO

Nota bibliografica segundo:
- Diogo Barbosa Machado, 1741, BIBLIOTHECA LUSITANA, TOMO II, pagina 395


GONÇALO LUCENA DE CARVALHO natural de Alcacer do Sal em a Provincia do Alentejo. Teve nacimento illustre, engenho agudo, e genio particular para a Poezia em que compoz diversas obras, que podiaõ eternizar a sua memoria se sahissem à luz publica, que fatalmente lhe impedio a morte privando o intempestivamente da vida. Entre as suas produçoens poeticas merece a primazia.

Poema heroico da Batalha do Campo de Ourique. Cuja obra ouvio muitas vezes ler por seu author o grande antiquario Manoel Severim de Faria, e o louva de ornado de excellente espirito em huma Carta escrita de Evora a 15 de Julho de 1647 a Antonio de Magalhaens Peixoto a qual está entre as suas Originaes, que vimos a fol. 126 v.º Tambem louvaõ o seu poetico furor Joan. Soar de Brito Theatr. Lusit. Liter lit. G n 19 e D. Francisco Manoel Carta dos AA. Portug escrita ao Doutor Themudo

IOAÕ BAPTISTA DE SIQUEIRA

Nota bibliografica segundo:
- Diogo Barbosa Machado, 1741, BIBLIOTHECA LUSITANA, TOMO II, pagina 602


IOAÕ BAPTISTA DE SIQUEIRA natural da Villa de Monte mòr o novo em a Provincia do Alentejo formado em a Faculdade da Iurisprudencia Civil, e muito aplicado ao estudo da Historia. Compoz.


Antiguidades da Villa de Alcacer do Sal. M. S.

Sor MARIA DA APRESENTAÇAM

Nota bibliografica segundo:

- Diogo Barbosa Machado, 1741, BIBLIOTHECA LUSITANA, TOMO III, pagina 429.

Sor MARIA DA PRESENTAÇAM, natural da Cidade de Faro em o Reino do Algarve, e Religiosa do Serafico Convento de Ara Caeli situado em a Villa de Alcacer do Sal, onde foy Mestra da Ordem, Vigaria do Coro, e Escrivãa do Convento. Por ser muito devota das Almas do Purgatorio instituhio huma Irmandade que hoje se acha muito augmentada para alivio das penas que padecem. Falleceo com evidentes sinaes de Predistinada junto do anno de 1654. Escreveo

Noticias das Religiosas, que lhe precederaõ em o Convento onde viveo, e morreo, e das que professaraõ depois de ser já professa. M. S. 4.

IOZEFA THEREZA DO MONTE CARMELO

Nota bibliografica segundo:
- Diogo Barbosa Machado, 1741, BIBLIOTHECA LUSITANA, TOMO II, pagina 911.


IOZEFA THEREZA DO MONTE CARMELO natural da Villa de Alcacer do Sal antiga Colonia dos Romanos em a Provincia Transtagana, filha de Nicoláo Coelho da Costa Capitaõ de Cavallos, e de D. Inez Maria de Mattos. Na tenra idade de tres para quatro annos entrou no Convento de Santa Clara de Evora onde professando a 8 de Setembro de 1721 exercitou o lugar de Vigaria do Coro, e de Mestra das Cerimonias em que he taõ perita, como publica a seguinte obra, que compoz.

Norma directiva de Cerimonias para as Senhoras Abbadessas da esclarecida Ordem Serafica em que se trata dos ritos particulares, que devem observar nos actos solemnes da Religiaõ com o uso do Bago, e taõbem se mostra o poder, e jurisdiçaõ que tem nos seus Mosteiros segundo o sentir de varios Authores com outras muitas singularidades, e preeminencias pertencentes ao supremo lugar da Prelasia. Madrid. 4
Sem anno da Impressaõ, e nome do impressor. Hum exemplar desta obra vimos na selecta Livraria de meu Irmaõ D. Iozè Barbosa Clerico Regular.

sexta-feira, abril 06, 2007

ANTONIO SALEMA, séc. XVI

Ilha de São Tomé

Área de Cabo Frio - Estado do Rio de Janeiro (Brasil)


Nota bibliografica de ANTONIO SALEMA segundo:
- Diogo Barbosa Machado, 1741, BIBLIOTHECA LUSITANA, TOMO I, páginas 382-383.

ANTONIO SALEMA, natural da antigua Villa de Alcacer do Sal da Diocese de Evora. Teve por Pays a Diogo Salema, e a Catherina Salema sua Prima. Foy Licenciado em Leys, e hum dos primeiros Collegiais do Collegio Real de S. Paulo admitido a 2 de Mayo de 1563. Depois de ler huma Cathedrilha de Instituta subio à Cadeira do Codigo no anno de 1567 onde dictou a Postilla ao Tit. Cod. De Fide instrumentorum, e outra ao Tit. Cod. Plus valere quod agitur, quàm quod fimulate concipitur. Sendo Dezembargador da Casa da Supplicaçaõ de que tomou posse por seu Procurador o Dezembargador Diogo Lameira a 16. de Março de 1570. foy mandado com huma Alçada a Pernambuco por ordem delRey D. Sebastiaõ, e depois de concluida esta incumbencia foy Governador de S. Thomé
[1], e do Rio de Janeiro[2]. Voltando ao Reyno foy nomeado Dezembargador dos Aggravos a 19 de Fevereiro de 1583. Cazou com D. Luiza de Siqueira filha de Affonso Bicudo, e de Izabel de Siqueira, a qual por morte de Antonio Salema seu primeiro marido passou a segundas vodas com Francisco de Almeida de Vasconcellos Secretario de Estado de Portugal em Madrid. Falleceo em Lisboa a 13 de Março de 1586. Jaz sepultado no Convento de S. Francisco. Fazem memoria delle Cabed. De Patronat. Regio cap. 44 D. Nic. De Santa Maria Chron. Dos Coneg. Reg. Liv. 10. cap. 7 n. 9. Sachin. Hist. Societ. Part.4. lib.2. n.172. e meu Irmaõ o P. D. Jozè Barbos. Nas Mem. Histor. Do Colleg. Real de S. Paul. Pag.82 n.7. e no Archiathaen. Lusit. P.15.
Impavidus Çalema levi vada salsa carinà
Trajiciet, cinctosque armis ruet acer in hostes:
Viribus at fractos, vanoque furore tumentes
Fuditus evertet, patriasque remittet ad auras
Compoz
Tratado da Conquista, que fez do Cabo frio
[3] contra os Franceses, e o Gentio Tamoyo, que nelle estavaõ fortificados. M. S. De cuja obra se lembra Maris dialog. De varia Hist. Dial.5. cap.2.

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[1] Corresponde actualmente à Ilha de São Tomé, que se situa no Golfo da Guiné, na zona equatorial.
[2] Na época correspondia à Capitania dada em 1532 por iniciativa regia a Lopo de Sousa, de forma a terem autonomia para defenderem o território e o desenvolverem. Entretanto este modelo foi abandonado e em resposta militar contra o projecto francês de colonização da região, Estácio de Sá funda a povoação de São Sebastião do Rio de Janeiro, no dia 1 de Março de 1565, como base militar portuguesa na Baia de Guanabara. Inicicialmente a povoação ficava junto ao actual Pão de Açucar, passando por iniciativa de Mem de Sá mais para o interior da Baia de Guanabara por volta de 1567-1568. Será esta nova localização da povoação que irá conhecer António Salema quando inicia a governação do Rio de Janeiro. Os franceses entretanto expulsos da Baia de Guanabara, mantem-se na zona do Cabo frio, sendo explusos definitivamente em 1575. Este feito militar será relatado por Antonio Salema.
[3] Região oriental do actual Estado Brasileiro do Rio de Janeiro, na zona de fornteira com o Estado do Espirito Santo.

segunda-feira, janeiro 15, 2007

Pequenos Notas sobre o Republicanismo segundo o jornal Pedro Nunes (1908-09)


Miguel Coquilho


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Origem e objecto do trabalho.

Titulo: Pedro Nunes
Subtítulo: Semanário republicano
Local: Alcácer do Sal
Periodicidade: Semanal
Propriedade: Comissões de Grândola, São Tiago do Cacem, Alcácer do Sal e Torrão
Direcção: Adriano Augusto de Matos
Administração: António Manuel Telles
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A perspectivação que o jornal Pedro Nunes, ao longo do período de dois anos (1908-09) compreendeu, remete-nos para o estudo dos últimos anos da monarquia, caracterizada pelo agravamento da instabilidade governativa, que viria a culminar com a ditadura de João Franco Pinto Castelo – Branco. Iniciara sua carreira política como deputado do partido regenerador na cidade de Guimarães em 1886. Ulteriormente em 1893, atribui um conjunto de criticas à vida administrativa e financeira do partido progressista, a que se seguiu a recusa em continuar em participar no governo do partido regenerador, no período compreendido de 1897-1900, dando origem com a sua desidência ao partido regenerador liberal.
Centrando o seu ideário num novo tom messiânico que remetia para uma nova vida, objectara o arbítrio propugnado pelos esquemas rotativistas, numa base constitutiva nacional, supra partidária. cujo desiderato seria a constituição de uma monarquia de cariz despótico, em que as preocupações sociais seriam prioritárias, mediante um Estado mais interventor
[1]no período designado por franquismo.
Iniciado quando D. Carlos lhe resolve atribuir o poder, como de um homem providencial se tratasse, autorizando-o a formar governo em 17 de Maio de 1906 perante o agravamento da crise financeira que por Portugal perpassava. A que era inerente cada vez mais a ameaça de bancarrota, resultante da precedente politica financeira preconizada pelo fontismo. Junto aos escândalos da campanha dos tabacos e consequente demissão de Hintze Ribeiro. Visto a conflituosidade entre o liberalismo monárquico e neoliberalismo republicano, se encontrar cada vez mais agudizada.
O que levara Franco a reconhecer que a sua continuidade no governo, só estaria assegurada, caso fosse viável um conjunto de medidas, mediante a construção de uma estratégia legislativa, tendente à redução da liberdade de expressão/informação num clima de censura aos jornais existentes, propalado pelos governadores civis; controle das eleições municipais; maiores competências aos juízes de instrução criminal; por fim, a questão dos «adeantamentos» à casa real, com que mantinham os palácios e tudo que lhes estivesse acoplado. Directamente conexionados com as enormes dividas que possuíam face ao erário público. Que Franco intitulara de ilegais, a fim de comprometer os ministros antecessores que teriam atribuído anonimamente ao rei quantias, afirmando-se desta forma como «único estadista honesto e liberal da história portuguesa»
[2]
Vindo a despoletar a propaganda republicana contestatária à monarquia, segundo a qual não estavam reunidas as condições necessárias para levar a cabo um conjunto de reformas, perante o total descrédito que o país se mantinha a atravessar. Patente no índice de trabalhadores descontentes com as dificuldades diárias que passavam., progressivamente mais identificados com republicanismo.
Que se prendia ao desenvolvimento de toda uma estratégia que pretendia por em prática, conducente á tomada de poder que viria a culminar com a revolta de 5 de Outubro de 1910. Assumindo-se como alternativa, direccionando seus interesses para a construção de uma base eleitoral de apoio dirigida sobretudo aos meios rurais, visto Portugal ser predominantemente um país onde abonava a ruralidade
[3]. Estruturando – se em comissões politicas paroquias, municipais e distritais.
Que o periódico republicano Pedro Nunes constituíra exemplo, ao se instituir em órgão das comissões politicas de Grândola, São Tiago do Cacem, Alcácer do Sal e Torrão do Alentejo, quando veiculou as suas criticas à monarquia cada vez mais débil e condicionada pela subserviência ao estrangeiro. Enquadrada pelo sintomático alheamento e desprezo pelos problemas nacionais, que cada vez mais a desacreditavam. Iludidos com o programa de governo, cada vez mais afastado da população pouco instruída, farta de ser mal governada, que se reflectira aquando as eleições
[4].
De forma a combater esta corrupção implicava educar civicamente o povo, tornar os cidadãos mais cultos, para isso só havia uma saída possível mas, para alcança-la, seria necessário tornar os portugueses mais capazes, conscientes dos seus deveres enquanto cidadãos, eliminando o analfabetismo, com maior número de escolas para que assim pudessem ser mais frequentadas, instaurando a plena democracia. Conjuntamente com a crítica à máquina eleitoral vigente, através da mobilização do eleitorado, exercendo de forma premente a sua cidadania
[5]. Face à complexidade da situação que só seria possível resolver na sua plenitude, se fosse debelada a questão económica[6].
Deveria ser às influências exercidas na educação promovida. Nomeadamente as concernentes ao jesuitismo e catolicismo que surgiam correlacionados. Porquanto objectivavam a manutenção de um estado teológico e metafísico no ensino divulgado no país. Cujos interesses conflituantes com a democracia, defendiam a monarquia como regime, objectando ao progresso com a divulgação da doutrina ultramontana. Assim sendo estabelecera-se as criticas às congregações instituídas, expondo o papel do jesuíta, conotado com a dominação e exploração do povo
[7]. Perseguidores da imprensa opositora ao regime «o gabinete negro funciona franquisticamente urdindo a teia em que envolve o depauperado arcaboiço da imprensa já tão espicaçado pelo cumprido aguilhão das querelas»[8]
Por seu turno ganha relevância gradualmente o laicismo, com a construção de um projecto educativo, subtraindo o cidadão à influencia exercida pela socialização dos valores religiosos, tornando-o racional e autónomo e imune à politica da religião. Na exacta medida em que seria necessário formar uma opinião pública, de modo a levar a cabo a secularização das instituições, promovendo a completa laicização da sociedade. Único modo de republicanizar na totalidade a sociedade.
Neste contexto importava ao Estado criar as condições necessárias, obstando à leccionação dos reaccionários monárquico – clericais, «dai que a tendência hegemónica no anticlericalismo republicano estivesse ciente, de que a inoculação de uma moral social livre de qualquer fundamento transcendente e a interiorização de uma religiosidade de vocação exclusivamente cívica, desempenharia a função sociabilitária que coube à religião até ao advento da era da positividade»
[9].
Então poder-se –à dizer que o resultado deste combate por parte do jornal Pedro Nunes ia de encontro à emancipação do individuo, única maneira de contrariar o caciques instaurados desde as grandes cidades até às províncias. Seleccionados entre os notáveis locais segundo o seu estatuto social, o que lhes conferia maior preeminência patenteada nas elites possidentes concelhias com maior controlo dos recursos.
Mediando os interesses do poder local junto da administração central, valendo-se do seu prestigio profissional. Distribuídos por uma categorização profissional diversificada abrangente, que comportava: advogados; médicos; professores e padres. Angariando o conjuntamente com os seus dependentes por entre a população o maior numero de votos, na expectativa de serem ressarcidos de bens e empregos para si como para sua família
[10].
Retratado pelo Pedro Nunes quando referencia a percentagem de votos à altura das votações, expressando que o voto na maior parte das localidades, do nosso pais, não chegava a uma décima parte da população residente que ao voto tinha direito. Ao que se juntava a inexistência das mesas eleitorais, que na maioria das vezes nem chegavam a ser construídas, apesar de se encontrarem registadas em acta, o que obscurecia totalmente todo o processo eleitoral
[11].
Porquanto os caciques, perpetuavam a exploração económica servindo-se da miséria instaurada nos votantes, cerceando-lhe em larga medida a independência aquando o voto
[12]. O que denota que o Pedro Nunes indiciava uma matriz republicana socializante explicita na defesa da associação e o colectivismo, de acordo com o imaginário social republicano. Ao evidenciar com a «associação» as condições necessárias de molde á sociedade civil se autonomizar[13].
Concertando as opiniões com a coesão de todos os princípios e ideias, com o apelo à organização das classes existentes, como de exércitos se tratassem guerreando por maiores reivindicações sociais – única forma de evolucionar a sociedade, alcançando a democracia. Sistematizado num «colectivismo» incompatível com o individualismo que negava as leis do progresso e da evolução, o que originava que o povo português fosse do mais refractários a associar-se
[14].
O que determinara que inequivocamente o acto eleitoral existente se fundamentasse na ignorância, tendo como mote a opressão das classes inferiores pelos mais privilegiados, a quem subsequentemente estaria implícito um tributo, fôro, que por conseguinte fez com que o voto em Portugal representasse um «mecanismo do regime feudal», resultante da apatia por parte do Estado quanto à generalização de um sistema educativo condizente com a necessário aperfeiçoamento do homem
[15]. Postulado que se traduzia pelo respeito das convicções de cada um, valor fundante que levara à construção da Republica Universal[16] A que se inferia a critica aos falsos orientadores de consciências, manifestando o seu apelo ao proletariado enquanto base social de apoio do republicanismo, desconhecedores dos direitos que o assistiam[17].
Noutra vertente o federalismo, ao qual estava subjacente um modelo político e administrativo que procurava acentuar sobretudo a corrente municipalista. No seu ideário radicava a critica ao estado unitário e centralista por não promover o sufrágio universal, levada a efeito pela divisão da nação portuguesa em governos autónomos. Mediante um conjunto de propostas, com maior autonomia governativa e administrativa para os intitulados grupos naturais detentores do poder, como os municípios, paróquias e províncias em que o poder central permaneceria assente numa assembleia federal entretanto eleita por sufrágio directo, da qual dependia por delegação o poder executivo.
Visava reconhecer maior representatividade das minorias, exponenciando maior representatividade para a vontade popular. O combate «à independência dos eleitos em relação aos eleitores veio a concretizar tanto quanto possível o antigo ideal da democracia directa, pois o candidato ficava explicitamente vinculado a um programa e, caso o violasse no exercício do seu cargo, o mandato poderia ser revogado»
[18] de acordo com a República Democrática e Federal Portuguesa que pretendiam implementar.
Viabilizada na crítica ao centralismo com o qual a monarquia corrompera a máquina eleitoral, negando o sufrágio universal, permitindo que o dinheiro permanecesse nas mãos de alguns favorecidos. Não criando riqueza pública, desbaratando sim o erário publico. Subsequentemente os níveis de desemprego aumentariam, como também a carestia da vida, que o Pedro Nunes explícita quando nos diz que:
«….esse numeroso pessoal, organizado hierarquicamente e fortemente disciplinado é o mais poderoso instrumento de despotismo – que outro não é o regime centralista. Os defensores de um tal sistema invocam para o justificarem o pretexto seguinte: que as localidades, como os simples cidadãos, carecem absolutamente de capacidade administrativa. E dai a dura necessidade de se submeterem com se fossem menores à tutela doa Estado. «eles(realeza) são suficientemente hábeis para reconhecer que a melhor escora da realeza, desacreditada e periclitante, com está entre nas o sistema centralista.Com poderia ele sustentar-se , se não tivesse dependente da sua mão todas as forças vivas do país? Como poderia sem a poderosa máquina centralista corromper, ou violentar o sufrágio?»
[19]


Conclusão

Terminada a analogia ao Jornal Pedro Nunes, verifico que o seu principal objectivo seria propagandear o novo ideário republicano, criando as condições necessárias à implementação de um regime democrático, levado a cabo construindo um projecto educativo direccionado ao cidadão.
O que por seu turno implicava anular as barreiras instituídas, na medida em que insistiam em perpetuar um horizonte mental que não se compadecia com a república universal que o republicanismo advogava. Efectivado pelo Pedro Nunes quando procurara por em prática uma politica desenvolvimentista conducente à maior autonomia, com base num ensino racional e progressivo de molde a evolucionar a sociedade. Com efeito interessava combater os poderes presentes, destacando-se uma monarquia decadente, coadjuvada por uma religiosidade cerceadora da liberdade individual patenteada na companhia de Jesus. Indiciada pela a monarquia – constitucional que até 1908-09 vigorara, quando defendera a funcionalização do clero, de molde a assegurar a construção de uma novo Estado – Nação. O que para o republicanismo não seria o bastante, defendendo em alternativa uma religião cívica. Descristianizando o estado com a secularização das instituições, veiculada por um ensino neutro levado a efeito por uma escola neutra. Construindo uma opinião publica esclarecida aquando a realização das eleições.
Assim sendo o Pedro Nunes revela as medidas opressoras postas em prática por um centralismo – unitarista redutor e/ou corruptor da autonomia local, com uma matriz federalista – socializante, promovida por um colectivismo obstrutor do individualismo, veiculando maior união entre o conjunto formado por todos os cidadãos. Aduzindo directamente ao caciquismo que estendiam a mão do poder central às províncias, onde se encontrava o maior numero de votantes, dado que Portugal sobretudo seria um Pais rural.
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Fontes:

Jornal Pedro Nunes: anos 1908 e 1909

Bibliografia:

ALMEIDA, Pedro Tavares de
Eleições E Caciquismo No Portugal Oitocentista (1868-1890). Lisboa, Difel, 1991.
CATROGA, Fernando
O Republicanismo em Portugal da formação ao 5 de Outubro de 1910, Lisboa, Editorial Noticias, 1991.
MARQUES, António H. de Oliveira
Ensaios de História de 1 republica Portuguesa, Lisboa, Livros Horizonte, 1988.
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[1] Vide Fernando Rosas «João Franco» in Dicionário Enciclopédico da História de Portugal, p 271.
[2] Vide, Rui Ramos, João Franco e o Fracasso do reformismo liberal (1884 – 1908), por página
[3] Vide A H. de Oliveira Marques, Ensaios de História da 1 República Portuguesa, p.12.
[4] Vide «Depois da Tragédia» in Pedro Nunes nº81, de 9/02/1908, p1.
[5] Vide Alda Guerreiro «Instruir é vencer» in Pedro Nunes nº133 de 14/02/1908,p.1.
[6] Vide Brito Camacho «O problema da miséria» in Pedro Nunes nº138 de 21/03/1908,p.1.
[7] Vide Jacinto Nunes, «A liga anti – clerical ou anti – jesuítica» in Pedro Nunes nº 105 de 7/08/1908, p.1
[8] Vide Styl, «Chronica de Lisboa» in Pedro Nunes nº130 de 24/01/1908, p.1.
[9] Vide, Fernando Catroga, «O laicismo» in O Republicanismo em Portugal. Da formação ao 5 de Outubro de 1910, p.221
[10] Pedro Tavares de Almeida, «Caciques, galopins e clientes» pp129-131.
[11] Vide «Semana Politica» in Pedro Nunes nº85, de 8/03/1908.p.2
[12] Vide «Semana Politica» in Pedro Nunes nº90, de 12/04/1908,p.1.
[13]Vide, Fernando Catroga, As organizações republicanas. Movimento Politico e Partido. O Associativismo e os direitos sociais» in O Republicanismo em Portugal. Da formação ao 5 de Outubro de 1910,pp.11-43.
[14] Vide Benjamim A. Rodeia, «Associação» in Pedro Nunes nº86, 15/03/1908, p.1.
[15]Vide «Semana politica» in Pedro Nunes nº88, de 29/03/1908, p.1.
[16] Vide «O que é ser republicano» in Pedro Nunes nº105, de 7/08/1908,p.1.
[17] Vide Jorge Nunes «Instrução, liberdade e Progresso» in Pedro Nunes nº111, de 13/10/1908.
[18] Vide Fernando Catroga, O Republicanismo em Portugal. Da formação ao 5 de Outubro de 1910,p.46.
[19] Vide Jacinto Nunes, «O Regime centralista» i n Pedro Nunes nº119, de 8/11/1908,p.1.

segunda-feira, novembro 27, 2006

Cancioneiro do Sado - Jornal Pedro Nunes: 2º Série, IV e Ultima Parte



Algures no estuário do rio Sado
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Jornal nº 222, de 30 de Outubro de 1910

O´rosa não queiras
Viver nos quintaes,
Aqui no meu peito
´Inda brilhas mais.


Para me tornares
Um rapaz perfeito,
´Inda brilhas mais
Aqui no meu peito.


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Jornal nº 223, de 6 de Novembro de 1910

Ateima teimoso
Tens bem que ateimar,
Tua teima ávante
Não has de levar.


Embora teimoso
E mito embirrante,
Não has de levar
Tua teima ávante.


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Jornal nº 224, de 13 de Novembro de 1910

A paixão d´amores
Não mata mas moe,
O meu coração
De leal se doe.


Porque espero amor
A nossa união,
De leal se doe
O meu coração.


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Jornal nº 225, de 20 de Novembro de 1910

O´moças, ó moças
Cá da minha aldeia,
Não queiram andar
Commigo em garreira.


Porque eu só assim
As posso estimar,
Commigo em garreira
Não queiram andar.


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Jornal nº 226, de 27 de Novembro de 1910

Anda meu amor
Anda vem dançar,
Inda é muito cedo
Para te ires deitar.


Vem dançar commigo
E não tenhas medo,
Que p´ra te ires deitar
Inda é muito cedo.


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Jornal nº 227, de 4 de Dezembro de 1910

O´olhos azues
Que já foram meus,
Agora são d´outros
Paciencia, adeus.


Olhos que parecem
De fogazes pôtros,
Paciencia, adeus,
Agora são d´outros.


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Jornal nº 228, de 11 de Dezembro de 1910

Quem quizer ser homem
Vá p´r´as Amoreiras,
Que lá não se dormem
As noites inteiras.


Vae p´ra lá meu bem
Apprende a ser homem,
As noites inteiras
Que lá não se dormem.


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Jornal nº 229, de 18 de Dezembro de 1910

O meu bem me disse
Hontem no jardim,
Querida adorada
Não chores por mim.


Forçam-me fazer
Tamanha jornada,
Não chores por mim
Querida adorada.


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Jornal nº 230, de 25 de Dezembro de 1910

Tenho cinco amores
Contigo são seis,
Tenho quatro em Palma
Dois em Valle dos Reis.


Com tantos amores
Se expande minh´alma,
Dois em Valle dos Reis
E quatro em Palma.


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Jornal nº 231, de 1 de Janeiro de 1911

Gosto de cantar
Com quem canta bem,
Gosto de ter graças
Com quem graças tem.


Como me admittam
As minhas chalaças,
Com quem graças tem
Gosto de ter graças.



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Jornal nº 232, de 8 de Janeiro de 1911

Venho de tão longe
P´ra te ouvir cantar,
Essa tua fala
Me foram gabar.


E porque o teu canto
A todos regala,
Me foram gabar
Essa tua fala.


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Jornal nº 233, de 15 de Janeiro de 1911

Maria Paulina
Diz que canta bem,
E´maior a fama
Que a fala que tem.


Não sei p´ra que gabam
Uma tal madama.
Que á fala que tem
E´maior a fama.


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Jornal nº 234, de 22 de Janeiro de 1911

O cantar quer hora
E o bailar maré,
Diga lá menina
Se isto assim não é.


Sei que sempre foi
Boa dançarina,
Se isto assim não é
Diga lá menina.


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Jornal nº 235, de 29 de Janeiro de 1911

O meu bem é lindo
Não pode ser mais,
Só basta não ter
No rosto signaes.


E p´ra sua cara
Mais bonita ser,
No rosto signaes
Só basta não ter.


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Jornal nº 236, de 5 de Fevereiro de 1911

Aquella menina
Do lenço encarnado,
Já me perguntou
Se eu era casado.


Não sei se a pequena
Commigo engraçou,
Se eu era casado
Já me perguntou.


_____________________________________________
Jornal nº 237, de 12 de Fevereiro de 1911

Aquella menina
Do lencinho branco,
Já me perguntou
Se eu era do campo.


Que int´resse terá
De saber quem sou,
Se eu era do campo
Já me perguntou.


____________________________________________
Jornal nº 238, de 19 de Fevereiro de 1911

Querida Maria
O teu pae é meu,
Minha mºae é tua
Teu amor sou eu


Pois que nos casamos
Em noite de lua,
Teu amor sou eu
Minha mãe é tua.


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Jornal nº 239, de 26 de Fevereiro de 1911

Amor se não era
Da tua vontade,
Para eu me deste
Tanta liberdade.


P´ra que me censuras
Se assim o quizeste;
Tanta liberdade
Para que me deste?


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Jornal nº 240, de 5 de Março de 1911

O´meu lindo amor
Despacha, despacha,
Não te posso vêr
De cbeça baixa.


Pois tal posição
Faz aborrecer,
De cabeça baixa
Não te posso vêr.


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Jornal nº 241, de 12 de Março de 1911

O´meu lindo amor
Despacha que é tempo,
Eu não estou guardada
P´ra nenhum convento.


Se não fosses tu
Já estava casada,
P´ra nenhum convento
Eu não estou guardada.

Cancioneiro do Sado - Jornal Pedro nunes: 2ª Série, III Parte

Estuário do rio Sado. Ao fundo a serra da Arrábida, na zona do Risco.

Algures a norte de Alcácer, na zona do estuário do rio Sado.
_______________________________________
Jornal nº 206, de 10 de Julho de 1910

Cautella Maria
Co´os teus palavrões,
Que a gente vê caras
Sem vêr corações!


Vê bem com quem falas,
Pois tu não reparas
Bem vêr corações
Que a gente vê caras?!


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Jornal nº 207, de 17 de Julho de 1910

Meu bem anda triste
Anda imaginario,
Eu bem o conheço
Pelo seu duario.


Parece-me que eu
Tambem lhe aborreço
Pelo seu duario
Eu bem o conheço.


_________________________________________
Jornal nº 208, de 24 de Julho de 1910

Amores, amores,
Como eu tenho tido,
Se agora os não tenho
Teem-me morrido.


Por lindos amores
Sempre eu fiz empenho,
Teem-me morrido
Se agora os não tenho.


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Jornal nº 210, de 7 de Agosto de 1910

Não chores amor
Que eu não vou morrer,
Dá graças a Deus
Qu´inda me has de vêr.


Vou servir o rei
Por peccados meus,
Qu´inda me has de vêr
Dá graças a Deus.


__________________________________________
Jornal nº 211, de 14 de Agosto de 1910

Não chores amor
Que a desgraça é minha,
Isto são dois annos
Que eu sirvo a rainha.


Obrigam-me a ir
Servir os tyrannos,
Que eu sirvo a rainha
Isto são dois annos.


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Jornal nº 212, de 21 de Agosto de 1910

Eu não sei cantar
Nem armar cantigas,
Todos os meus enlevos
São as raparigas.


Quando ellas se enfeitam
Com cheirosos trevos,
São as raparigas…
Todos os meus enlevos.


___________________________________________
Jornal nº 213, de 28 de Agosto de 1910

Se eu quizesse amores
Tinha mais d´um moio,
Se tenho só um
E´trigo sem joio.


E não desejando
De ter mais nenhum,
E´trigo sem joio
Se tenho só um.


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Jornal nº 214, de 4 de Setembro de 1910

Se eu quizesse amores
Tinha mais d´um cento,
E´pão bolorento.


Até já com elle
Me não entretenho,
E´pão bolorento
Esse qu´inda tenho.


_____________________________________________
Jornal nº 215, de 11 de Setembro de 1910

Lindo amor eu tenho
Sezões a morrer,
Suppõe o valor
Que eu poderei ter.


Sem te vêr meu bem
Soffro tanta dôr,
Que eu poderei ter
Suppõe o valor.


______________________________________________
Jornal nº 216, de 18 de Setembro de 1910

O´juizo vario
Vareia, vareia.
Não posso ser firme
A quem me falseia.


Se amar quem é falso
E´um grande crime,
A quem me falseia
Não posso ser firme.



_________________________________________________
Jornal nº 217, de 25 de Setembro de 1910

O Anna, ó Anna,
Quem cahiu, cahiu,
Levanta-te ó Anna
Que ninguem te viu.


Pareces a ser
Muito leviana,
Que ninguem te viu
Levanta-te ó Anna.


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Jornal nº 218, de 2 de Outubro de 1910

E´um gosto ouvir
Nas manhãs d´Abril,
Chiar os carrinhos
De Banagazil (1)


Há quem se aborreça
D´ouvir p´los caminhos,
De Banagazil
Chiar os carrinhos.

1 - Grande herdade na margem sul, do alto Sado,
da qual teem fama os seus grandes palheiros e a chiada dos seus carros.


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Jornal nº 219, de 9 de Outubro de 1910

Já não há quem queira
Ganhar um vintem,
Ir à outra banda
Chamar o meu bem.


Esse que quer vae
E o que não quer manda,
Chamar o meu bem
Ir á outra banda.


____________________________________________
Jornal nº 220, de 16 de Outubro de 1910

Eu ouvi tocar
A campa no adro,
Abalei, fui vêr
Meu bem sepultado.


Com muito desgosto
E nenhum prazer,
Meu bem sepultado,
Abalei, fui vêr.



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Jornal nº 221, de 23 de Outubro de 1910

Se te dei palavra
Agora não quero,
Palavras não são
Correntes de ferro.


Se a palavra d´honra
Tem acceitação,
Correntes de ferro
Palavras não são.

Cancioneiro do Sado - Jornal Pedro Nunes: 2ª Série, II Parte

Teatrinho de Santa Susana. Alcácer

Igreja de Santa Susana. Alcácer

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Jornal nº 188, de 6 de Março de 1910

Moças não se enlevem
Nos homens de c´rôa,
Pois é um peccado
Que Deus não perdoa…


Nem devem olhar
P´ra quem é prelado,
Que Deus não perdoa
Pois é um pecado.


__________________________________________
Jornal nº 189, de 13 de Março de 1910

Dizem que não há
Na terra «pardaes»,
De bico amarello
Cada vez há mais.


D´esses «passarinhos»
Ali p´r´o castello,
Cada vez há mais
De bico amarello.


______________________________________________
Jornal nº 190, de 20 de Março de 1910

Quem quizer ouvir
Cantar o grazina,
Vá domingo á missa
A Santa Cath´rina…


Levante-se cedo
Não tenha preguiça,
A Santa Cath´rina
Vá domingo á missa.


_________________________________________
Jornal nº 191, de 27 de Março de 1910

Quem quizer vêr gente
Da côr do carvão,
Vá dar um passeio
Até S. Romão.


Vêja o nosso Sado
Não tenha arreceio,
Até S. Romão
Vá dar um passeio.


_____________________________________
Jornal nº 192, de 3 de Abril de 1910

Quem quizer ouvir
Cantar minha mana,
Vá vêr uma festa
A Santa Susana.


Quem santos adora
E attenção lhe presta,
A Santa Susana,
Vá vêr uma festa.


___________________________________________
Jornal nº 193, de 10 de Abril de 1910

Estes namorados
Agora de novo,
Querem pôr peneiras
Nos olhos do povo.


Para lhe não vêrem
As suas asneiras,
Nos olhos ao povo
Querem pôr peneiras.


_______________________________________
Jornal nº 194, de 17 de Abril de 1910

Se quizeres saber
Pergunta meu bem,
O mar de fundura
Quantas braças tem.


Como és curioso
Meu amor procura,
Quantas braças tem
O mar de fundura.


_________________________________________
Jornal nº 195, de 24 de Abril de 1910

Vae-te embora amor
Desculpa mandar-te,
Só Deus sabe a pena
Que eu tenho em deixar-te!


Um vilão maldito
A tal nos condemna.
Que eu tenho em deixar-te
Só Deus sabe a pena1…


_________________________________________
Jornal nº 196, de 1 de Maio de 1910

Eu não venho aqui
P´ra ganhar a palma.
Vim só p´ra te vêr
Amor da minh´alma!


Há quem se admire
D´eu aqui vir ter.
Amor da minh´alma
Vim só p´ra te vêr!


_________________________________________
Jornal nº 197, de 8 de Maio de 1910

Já não tenho amores
Já não tenho nada,
P´ra mim se acabou
Tudo de pancada.


´Té já como os velhos
A um canto estou,
Tudo de pancada
P´ra mim se acabou.


_______________________________________
Jornal nº 198, de 15 de Maio de 1910

Amor se te fores
Has de me levar,
Na tua companha
E´que quero andar.


Só porque te tenho
Affeição tamanha,
E´que quero andar
Na tua companha.


_______________________________________
Jornal nº 199, de 22de Maio de 1910

Meu bem se te fôres
Leva-me tambem,
Em tua companha
Eu vou muito bem.


Embora me leves
Para terra extranha,
Eu vou muito bem
Em tua companha.


________________________________________
Jornal nº 200, de 29 de Maio de 1910

Mana Claudina
Que tens que não cantas?
Onde estão senhoras
Não se adoram santas.


Muito embora ellas
Sejam seductoras,
Não se adoram santas
Onde estão senhoras.


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Jornal nº 201, de 5 de Junho de 1910

Eu tenho-te dito
Tu tens teimado,
Agora é que temos
O caldo entornado.


Como há muitos annos
Que nos conhecemos,
O caldo ntornado
Agora é que temos.


__________________________________________
Jornal nº 202, de 12 de Junho de 1910

Tenho o coração
No peito afflicto,
E´de tanta coisa
Que me teem dito.


Se este passarinho
Já não cae em loisa,
Que me teem dito
E´de tanta coisa.


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Jornal nº 203, de 19 de Junho de 1910

Não tenho alegria
Se não em te vendo,
Cada vez mais lindo
Me estás parecedo.


Para mim amor
E´s sempre bemvindo,
Me estás parecendo
Cada vez mais lindo.


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Jornal nº 204, de 24 de Junho de 1910

Cantem moças, cantem,
Cantam todas juntas,
Quem sabe p´r´o anno
As que são defunctas?!


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Jornal nº 205, de 3 de Julho de 1910

Quando eu não tinha
Contractos comtigo,
Vivia contente
E livre de p´rigo…


Andava bem visto
Pela fina gente,
E livre de p´rigo
Vivia contente.

Cancioneiro do Sado - Jornal Pedro Nunes: 2ª Série, I Parte

Igreja de Santiago. Uma das joias do património Alcacerense.

Zona ribeirinha junto ao rio Sado em Alcácer
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Jornal nº 167, de 10 de Outubro de 1909

Amores, amores
Como eu tenho tido
«Agora já» não
Teem-me morrido.


Amores eu tive
Mais d´um quarteirão
Teem-me morrido
«Agora já» não.


_____________________________________________
Jornal nº 168, de 17 de Outubro de 1909

Vae-te embora amor,
Desculpa mandar-te…
Sabe Deus apena
Que tenho em deixar-te.


Enormes castigos
O destino ordena,
«Que tenho em deixar-te»
«Sabe Deus a pena»


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Jornal nº 169, de 24 de Outubro de 1909

N´outro tempo amor
Que te não amava,
Lograva saude
Pouco me ralava.


S´isto não é certo
Deus me ajude,
Pouco me ralava
Lograva saude.


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Jornal nº 170, de 31 de Outubro de 1909

Oliveira secca
Quem te varejou,
Nem uma raminha
Sequer te deixou.


Quem tão mal te fez
Foi alma damninha,
Sequer te deixou
Nem uma raminha.


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Jornal nº 173, de 21 de Novembro de 1909

Eu sou oliveira
Sou oliveirinha,
Creada e nascida
Na «Enxarraminha»


No Sado formoso
Passo minha vida,
Na «Enxarraminha»
Creada e nascida


________________________________________________
Jornal nº 174, de 28 de Novembro de 1909

Ateima teimoso
Tens bem que ateimar,
Eu sou ferro frio
Que é mau de dobrar.


Talvez não triumphes
N´este desafio,
Que é mau de dobrar.
Eu sou ferro frio.


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Jornal nº 175, de 5 de Dezembro de 1909

Ainda que cuide
De levar pancadas,
Eu hei de seguir
As tuas passadas…


Embora p´ra longe
Tu queiras partir,
As tuas passadas
Eu hei de seguir!


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Jornal nº 176, de 17 de Dezembro de 1909

A tua abalada
Para mim foi boa,
Já cá ´stou virada
P´ra outra pessoa.


Nunca mais serei
Tua namorada,
P´ra outra pessoa
Já cá ´stou virada.


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Jornal nº 177, de 19 de Dezembro de 1909

Eu não sei mal
Que te tenho feito,
Para mim não tens
O olhar com geito!


Sempre carrancudo
P´ra meu lado vens,
E o olhar com geito
Para mim não tens!


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Jornal nº 179, de 1 de Janeiro de 1910

O morte tyranna
Porque me não levas?
Não tenho ninguem
Sou filho das hervas…


Se ella me levasse
P´ra mim era um bem,
Sou filho das ervas
Não tenho ninguem…


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Jornal nº 180, de 9 de Janeiro de 1910

Oliveira secca
Quem tevarejou?
Nem uma raminha
Sequer te deixou.


Para te despir
A gente damninha,
Sequer te deixou
Nem uma raminha.


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Jornal nº 181, de 16 de Janeiro de 1910

Adeus oliveiras
Adeus olivaes,
Adeus meu amor
Não vos vêjo mais.


Eu bem sei que morro
De paixão e dôr,
Não vos vêjo mais
Adeus meu amor!


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Jornal nº 182, de 23 de Janeiro de 1910

A paixão d´amores
Mata muita gente,
A mim não me mata
Andando eu doente.


Só o que faz falta
A morte arrebata,
Andando eu doente
A mim não me mata.


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Jornal nº 183, de 30 de Janeiro de 1910

Se a morte viesse
E ella me levasse,
Não tinha ninguem
Que por mim chorasse.


A não seres tu
Oh! Meu lindo bem,
Que por mim chorasse
Não tinha ninguem.

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Jornal nº 185, de 13 de Fevereiro de 1910

O´meu lindo amor
Despacha, despacha,
Não te posso vêr
De cabeça baixa.


A tua attitude
Me faz esmor´cer,
De cabeça baixa
Não te posso vêr.


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Jornal nº 186, de 20 de Fevereiro de 1910

Se tu me não amas
Maria meu bem,
Vou assentar praça
Não olho a ninguem.


Sendo tu a causa
Da minha desgraça,
Não olho a ninguem
Vou assentar praça.


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Jornal nº 187, de 27 de Fevereiro de 1910

Tens os olhos pretos
Como o cezirão,
Namora-te agora
Bella occasião!...


Que lindo zaga!
Ao pé de ti móra,
Bella occasião
Namora-te agora!...

sábado, novembro 25, 2006

Cancioneiro do Sado: Um ponto de situação

Inicio do estuário do rio Sado, no Bugio. Local com fornos de ânforas do periodo romano e que depois foi habitado em contexto contemporâneo até ao século passado.Ao longe é visível o braço do estuário que se desenvolve até à povoação de Alberge.

Como já tivemos ocasião de referir, demos por concluida a primeira série de recolhas do Cancioneiro do Sado, tendo como base os dois volumes encadernados do Jornal Pedro Nunes, existente na biblioteca municipal.Graças ao trabalho já efectuado pelos nossos colegas da biblioteca que importa referir e valorizar, foi efectuada uma recolha exaustiva de poesia que vai até 1910. Com base nessa recolha é possível dar inicio à segunda fase deste Cancioneiro. É importante que os estudiosos, curiosos e apaixonados pela história do nosso concelho, possam frequentar mais vezes a biblioteca e o arquivo municipal, porque ambos encerram um património documental muito importante, à espera de ser estudado e divulgado. Existem preciosidades no arquivo municipal que em devido tempo iremos dar conta, mas esse mundo documental tambem está à vossa espera.

Em relação à primeira série de recolhas, em sintese podemos referir que efectuamos uma recolha de 78 poemas que disponiblizamos online neste blog. A grande maioria desta poesia popular, podemos inserir no grupo da Poesia de Amor. Ela transmite-nos os anseios de uma comunidade de jovens apaixonados, que lutam contra os condicionalismos sociais da época, sofrem em silencio pela ausencia do bem amado e lutam contra a vontade contrária dos pais da jovem. Outra poesia, num registo mais escasso, pode ser inserida na critica social algo irónica.
Estamos curiosos em saber o que iremos descobrir nesta segunda série de poesia do nosso Cancioneiro, que está a contribuir para a renovação da visão que temos sobre o passado recente da nossa região.

quinta-feira, novembro 23, 2006

Cancioneiro do Sado - Jornal Pedro Nunes: VI Parte e Conclusão


Santuário de Santa Maria dos Mártires, actualmente denominado Senhor dos Mártires. Panteão de alguns Mestres da Ordem de Santiago.

Damos por concluida esta fase de recolha de poesia de raiz popular, cantada pela gente anónima da nossa região de Alcácer, tal como foi publicada pelo Jornal Pedro Nunes, no início do século passado. Tivemos como base de análise, os dois volumes encadernados que se encontram à guarda da Biblioteca Municipal de Alcácer. Na eventualidade de encontrar outros numeros deste jornal, daremos inicio a uma segunda série de recolhas. Aguardamos os vossos comentários, ou a indicação da existencia de outros Cancioneiros e poesia deste Sado Alcacerense, onde nos recantos deste rio, na charneca e montado, nos montes, no silencio da intimidade, brota uma poesia cheia de sabedoria e anseios, numa forma especial de viver...que só nos sabemos...
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Jornal nº 139, 28 de Março de 1909

Amor não me´screvas,
Cartas em latim,
Que eu não as sei ler.
São paixões p´ra mim.


Se das mesmas cartas
Teimas em ´screver,
São paixões p ´ra mim
Que eu não as sei ler.


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Jornal nº 140, 4 de Abril de 1909

Minha q´rida mãe
Tudo sei fazer
Menos namorar
Eu hei de aprender.


O pouco que falta
P´ra poder casar
Eu hei de aprender
Menos namorar.


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Jornal nº 141, 11 de Abril de 1909

Gosto de cantar
Com quem canta bem,
Gosto de ter graças
Com quem graças tem.


P´ra que acceites sejam
As minhas chalaças,
Com quem graças tem
Gosto de ter graças.


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Jornal nº 142, 18 de Abril de 1909

Menina de luto
Seu pae lhe morreu,
Já não vale tanto…
Como já valeu!


Embora a menina
Se desfaça em pranto,
Como já valeu…
Já não vale tanto.


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Jornal nº 143, 25 de Abril de 1909

DESCANTE

Elle

O´minha menina
Viva descançada,
Da sua belleza
Não pretendo nada.


Se quer que lhe fale
Com toda a franqueza,
Não pretendo nada
Da sua belleza.


ELLA

Nobre cavalheiro,
A minha belleza
Que o não enfeitiça
Eu tenho a certeza.


Até a menina
Que agora derriça,
Eu tenho a certeza
Que o não enfeitiça.


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Jornal nº 144, 2 de Maio de 1909

Assim não me custa
Subir a ladeira,
Somente receio
Que o teu pae não queira.


Meu bem p´ra te ver
Descobri o meio,
Que o teu pae não queira
Somente receio.


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Jornal nº 145, 9de Maio de 1909

Amor não me escrevas
Que me mata mais,
Cartas são papeis
Lettras são signaes.


Pois já me aborrecem
Os seus aranzeis,
Lettras são signaes
Cartas são papeis.


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Jornal nº 146, 16 de Maio de 1909

Tenho ódio aos pães
Da minha adorada,
Pois me dão a filha
Por mal empregada.


Malditos que lêem
P´la mesma cartilha.
Por mal empregada
Não lhes quero a filha.


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Jornal nº 147, 23 de Maio de 1909

Não vejo o meu bem
Senão ao domingo,
Em toda a semana
Em chorar me vingo.


Somente em pensar
Que elle me engana,
Em chorar me vingo
Em toda a semana.


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Jornal nº 148, 30 de Maio de 1909

Anda cá meu bem
Anda cá, vem ver,
Amorinhos novos
Qu´eu ´stou para ter!


Vê lá se me arranjas
Uma assorda d´ovos,
Qu´eu s´tou para ter
Amorinhos novos.


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Jornal nº 149, 6 de Junho de 1909

O meu coração
A tudo se anima,
Recebe desfeitas
De quem mai estima


Em tudo consente
Nunca tem suspeitas,
De quem mais estima
Recebe desfeitas.


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Jornal nº 150, 13 de Junho de 1909

O meu coração
Em tudo é valente,
Mesmo com ciúmes
Vive alegremente.


Da vida dos outros
Não toma os costumes,
Vive alegremente
Mesmo com ciúme.


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Jornal nº 152, 27 de Junho de 1909

Adeus oliveiras
Adeus olivaes,
Adeus meu amor
Para nunca mais.


Desculpem se fujo
Como um desertor,
Para nunca mais…
Adeus meu amor.


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Jornal nº 153, 4 de Julho de 1909

O meu lindo amor
Tem bonitas prendas,
Não gosta de vinho
Nem joga nas vendas.


Como elle não há
Tão bom rapazinho,
Não joga nas vendas.
Nem joga nas vendas.


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Jornal nº 154, 11 de Julho de 1909

O´moças não queiram
Amar o meu bem,
Elle ainda não foi
Leal a ninguém.


Pois alem de ter
Força como um boi,
Leal a ninguém
Elle inda não foi.


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Jornal nº 155, 18 de Julho de 1909

Deixa-te estar rosa
Na tua roseira,
Para mal casada
Mais vale solteira.


Para não viveres
Bem acompanhada,
Mais vale solteira
Que mal casada.


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Jornal nº 156, 25 de Julho de 1909

Já não há quem ouça
Cantar um ganhão,
Só lá na lavoura
Tanto á língua dão!


Julgam que a mulher
E´d´elles vassoura,
Tanto á língua dão
Só lá na lavoura!


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Jornal nº 157, 1 de Agosto de 1909

Se fores a Elvas
Vae á piedade,
E´a melhor coisa
Que tem a cidade.


Não deixes de ver
Do meu bem a lousa,
Que tem a cidade
E´a melhor coisa.


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Jornal nº 158, 8 de Agosto de 1909

O´amor, amor,
O´amor vadio,
Já há tanto tempo
Que andas arredio.


Eu tenho soffrido
Muito contratempo,
E tu arredio
Já há tanto tempo.


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Jornal nº 159, 15 de Agosto de 1909

Triste coração
Alegra-te agora,
Aqui tens á vista
Um bem que te adora.


Se do meu amor
Tu andas na pista,
Um bem que te adora
Aqui tens á vista.


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Jornal nº 160, 22 de Agosto de 1909

Eu tenho-te dito
Tu tens ateimado,
Agora é que temos
O caldo entornado.


D´essas teimosas
O resto veremos,
O caldo entornado
Agora é que temos.


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Jornal nº 161, 29 de Agosto de 1909

Adeus oliveiras
Adeus olivaes,
Adeus meu amor
Para nunca mais.


Eu sei que te faço
Com isso favor,
Para nunca mais
Adeus meu amor.


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Jornal nº 162, 5 de Setembro de 1909

Amor de viúvo
Amor bandoleiro,
Quanto mais não vale
Um rapaz solteiro.


Em amor p´ra velhos
Meu pae não me fale.
Um rapaz solteiro
Quanto mais não vale.


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Jornal nº 163, 12 de Setembro de 1909

Estás bem de preto
Senão fosse o dó,
Paciência amor
E´um anno só.


Satisfaz o mundo
Que elle é impostor,
E´um anno só
Paciência amor.


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Jornal nº 164, 19 de Setembro de 1909

Considera amor
Ao depois não digas:
- As mulheres são
Como as raparigas.


Se o amor não é
Sincera paixão,
Como as raparigas
As mulheres são.


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Jornal nº 165, 26 de Setembro de 1909

Eu hei de te amar
Eu hei de te querer,
Sem teu pae sonhar
Sem teu pae saber.


Sempre que poder
Te hei de falar,
Sem teu pae saber
Sem teu pae sonhar.

quarta-feira, novembro 22, 2006

Cancioneiro do Sado - Jornal Pedro Nunes: V Parte

Vale do Sado a norte de Alcácer

Palmeira na aldeia de Santa Susana, Alcácer do Sal

Capela das 11 000 Virgens. Convento de S. António. Alcácer do Sal


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Jornal nº 126, 27 de Dezembro de 1908

A minha adorada
Já se foi deitar,
Não tinha sapatos
Para vir dançar!


Trazia uns chinellos
Sem solas nem saltos!
Para vir dançar
Não tinha sapatos


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Jornal nº 127, 3 de Janeiro de 1909

Eu subi ao alto
A´meia ladeira,
P´ra ver o meu bem
Que andava na eira!


Ainda depois
Subi mais alem,
Que andava na eira
P´ra ver o meu bem.


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Jornal nº 128, 10 de Janeiro de 1909

O´meu qu´rido amor
Só tu, ninguém mais,
Tiveste a dita
D´ouvir os meus ais.


Alem de não teres
Figura bonita,
D´ouvir os meus ais
Tivestes a dita.


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Jornal nº 129, 17 de Janeiro de 1909

O´meu lindo amor
Só tu, mais ninguém,
Me tira a paixão
Que a minh´alma tem.


De te ver meu bem
E´grande alegrão,
Que a minh´alma tem
E me tira a paixão.


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Jornal nº 130, 24 de Janeiro de 1909

Venho de tão longe
Patinhando poças,
Venho só á fama
De tão lindas moças.


Não disse nem digo
Quem aqui me chama,
De tão lindas moças
Venho só á fama.


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Jornal nº 131, 31 de Janeiro de 1909

Fui ao verde campo
P´ra ver um amigo,
Que encontro tão lindo
Eu tive comtigo.


Ao ver-te meu bem
Alegre e sorrindo,
Eu tive comtigo
Um encontro lindo.


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Jornal nº 132, 7 de Fevereiro de 1909

Toma lá amor
Que te manda a prima,
Um lenço d´abraços
Com beijos em cima.


Acceita meu bem,
Envolve em teus laços,
Com beijos em cima
Um lenço d´abraços.


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Jornal nº 133, 14 de Fevereiro de 1909

Assim pequenina
Como um cascabulho,
Eu sou a que faço
Nos bailes barulho.


Quando o tocador
Não toca a compasso,
Nos bailes barulho
Sou eu que o faço.


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Jornal nº 135, 28 de Fevereiro de 1909

O meu pae não quer
Que eu fale comtigo,
Fazemos-lh´o gosto
Fala tu commigo.


E não há por isso
O menor desgosto,
Fala tu commigo
Fazemos-lh o gosto


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Jornal nº 136, 7 de Março de 1909

A minha rival
E´um escarapão;
Tem nariz de bicha
Testa de Furão.


Arrebita o rabo
Como a lagartixa.
Testa de furão,
E nariz de bicha.


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Jornal nº 137, 14 de Março de 1909

´Inda que meu pae
Na rua te ponha,
Amor finge ter
Cara sem vergonha.


Nunca dês ouvidos,
Ao que elle disser,
Cara sem vergonha
Amor finge ter.


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Jornal nº 138, 21 de Março de 1909

Conta-me o motivo
Da tua paixão,
Pode ser que eu traga
Remédio na mão.


E´d´algum rival
Com certeza praga,
Remédio na mão
Pode ser que eu traga.